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  Cabo Verde
Cinzas, tradição que há séculos desafia as leis da Igreja
- 8-Feb-2005 - 14:47


Pelo Carnaval, a folia consome todas as energias, mas pelas cinzas, festa religiosa que se comemora no dia seguinte, quarta-feira, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, é tempo de retemperar forças, porque a abundância não deixa alternativas.


Por Orlando Rodrigues
da agência Lusa

Todos os anos é assim, e não há memória de quando se terá iniciado essa prática, hoje secular, numa interpretação abusiva dos mandamentos da igreja católica, que determina abstinência e frugalidade no início da Quaresma.

São costumes bem enraizados pelos quais ninguém se responsabiliza e práticas de muitos anos que, por serem já tradicionais, ignoram ostensivamente a flagrante contradição entre a permissividade que representam e o símbolo litúrgico cuja essência lhes dá origem.

Outra característica curiosa é que as cinzas apenas se comemoram na ilha de Santiago, não sendo extensivas a nenhum outro ponto do arquipélago.

Apesar disso, todos quantos vivam na maior ilha de Cabo Verde, naturais ou não, observam religiosamente os rituais pagãos da celebração.

Será por isso preciso procurar as explicações na forma muito própria como os escravos, de que Santiago herdou os principais traços culturais e religiosos, interpretavam os preceitos católicos.

A própria dieta que se pratica na quarta-feira das cinzas é bastante típica, consistindo em pratos baseados no milho e no feijão e confeccionados com óleo de coco, sendo a abstinência em relação à carne o único rigor permitido.

No almoço das cinzas, em todas as casas de Santiago, não falta o Xerém, espécie de papa, mas de textura mais consistente, feita a partir de milho pilado, mas de forma a que os grãos fiquem bastante grossos. O peixe seco também é abundante.

Outro componente do almoço do dia é a "Trotchida", feita com feijão, ovos e óleo de coco, havendo também abundância de tubérculos e legumes cozidos, a par de outros pratos tradicionais nas cinzas, alguns dos quais vão caindo em desuso.

À sobremesa, continua no entanto a ser indispensável o mel de cana sacarina e o "cuscus", este último de preferência seco e cortado em pequenos bocados, que são servidos à mistura, numa chávena, com o líquido adoçante.

As cinzas são marcadas pela extrema abundância, não podendo haver economia nesse dia especial. Em todas as casas come- se à medida do apetite de cada um, e todas as visitas são bem- vindas.

A igreja católica, que ainda se assume como guardiã da pureza de muitos costumes religiosos em Cabo Verde, tolera a forma como os santiaguenses interpretam as cinzas, embora faça saber que, pelos excessos de que se revestem, estão "em flagrante contradição com o que manda a Santa Madre Igreja".

A imposição das cinzas significa o início da Quaresma, por definição um período de jejum, frugalidade e abstinência. É um exercício de reflexão e de preparação do corpo e do espírito para a Páscoa, um acontecimento importante do calendário católico.

Por isso, embora a prática popular tenha imposto as suas leis, as cinzas não são, nem podem ser, um momento de excessos gastronómicos como é hábito acontecer, todos os anos, em toda a ilha de Santiago.

Um facto é que, concordando ou não, a hierarquia católica cabo-verdiana nada faz para contrariar a celebração das cinzas na forma como são assinaladas na ilha de Santiago, por constituírem tradição secular e, por isso, difícil de combater.

Curiosamente, são os católicos que mais se empenham na transgressão mas, de maneira geral, todos alinham.

Félix Andrade não é católico nem natural de Santiago, mas já tem onde ir passar as cinzas, com "tudo aquilo a que a celebração dá direito".

E confessa que não se fará rogado para fazer as honras a tudo o que lhe for servido, começando, segundo perspectivou, por um "bom peixe de cabeça seco, bem regado com um azeitinho português e acompanhado de muita verdura".

Em casa de Honorata Mendes, mais conhecida Nhá Nóia, o ritual será completo. Depois do almoço, juntamente com o marido, reformado, fará a caminhada do Palmarejo, onde moram, até à praia de Quebra Canela, para se estirarem e rolarem na areia.

Este costume tende também a desaparecer, pois já quase não é seguido, mas existem ainda aqueles, como Nhá Nóia, que mais por higiene do que por tradição, lá dão o seu passeio até à praia, onde o ar fresco do mar convida a uma boa cavaqueira.

O dia das cinzas significa antes de tudo, um confronto entre o pagão e o religioso, como aliás acontece com muitas festas populares do arquipélago, particularmente em Santiago, onde muitas heranças do passado persistem de forma imutável.

Em virtude da tolerância que os seguidores de uma e de outra prática observam, será difícil dizer em que medida uma dessas vertentes consegue sobrepor-se à outra, mas um facto é que a coexistência é real e resulta perfeitamente pacífica.

Será também difícil encontrar em Santiago quem não comemore as cinzas. Naturais da ilha ou não, adeptos de outras religiões, estrangeiros residentes ou simples turistas de passagem, a grande maioria deixa-se levar pelo espírito do dia.

Mesmo os restaurantes adaptam o seu cardápio à dieta do dia, propondo os pratos típicos tradicionais das cinzas. E pelo que se sabe a ninguém desgostam, pois para além de saborosos, são saudáveis e nutritivos.


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