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Não brinquem
com a Lusofonia

- 21-Feb-2005 - 16:40

A Lusofonia, essa realidade que em muito ultrapassa os 200 milhões de cidadãos em todos os cantos do planeta, parece condenada a ser ultrapassada, ou até mesmo aniquilada, por qualquer outra fonia. Tudo porque Portugal, mais do que dar nova luz ao Mundo, parece preocupado apenas com os limites físicos das ocidentais praias lusitanas.



Portugal não pode (ou, pelo menos, não deve) esquecer que tem responsabilidades na defesa e na divulgação de uma língua que faz História.



Esquecer, ou lembrar uma vez por ano, todos aqueles que dão corpo e alma à Lusofonia não passa de um vil crime.



E é um crime porque, afinal, é preciso que Portugal trabalhe para os milhões que têm pouco e não, como vai acontecendo, para os poucos que têm milhões.



Parafraseando Luís de Camões, em português se canta o peito ilustre lusitano e, na prática, importa recordar que a ele obedeceram Neptuno e Marte. Além disso, importa dizê-lo, manda cessar (se para tal todos os lusófonos tiverem engenho e arte) «tudo o que a Musa antiga canta».



Quando será que, de forma consciente e consistente, Portugal entenderá que «outro valor mais alto se alevanta»?



Por culpa (mesmo que inconsciente) dos poucos que não vivem para servir e que, por isso, não servem para viver, continuam os milhões que se entendem em português a comer e calar, amordaçados pela mesquinhez dos que se julgam detentores da verdade.



É claro que, como em tudo na vida, não faltarão os que dirão que não é possível entregar a carta a Garcia. Dirão isso e, ao mesmo tempo, apontarão a valeta mais próxima. A História do Mundo desmente-os. A História de Portugal desmente-os. Além disso, não custa tentar o impossível, desde logo porque o possível fazemos nós todos os dias.



Mas não será com esses que se fará a História da Lusofonia apesar de, reconheço, muitos deles teimarem em flutuar ao sabor de interesses mesquinhos e de causas que só se conjugam na primeira pessoa do singular.



Para mim a Lusofonia deveria ser um desígnio nacional. Defender esta tese é, provavelmente, pregar paras os peixes. Mas, creio, vale a pena continuar a lutar. Lutar sempre, apesar da indiferença de (quase) todos os que podiam, e deviam, ajudar a Lusofonia.



Será desta? Não creio. Até agora continuam a ser mais os exemplos dos que em vez de privilegiarem a competência preferem a subserviência.



Um amigo, também ele apaixonado pela Lusofonia, fez-me o retrato do que entende ser o mal da nossa (lusófona) sociedade:



«Quem trabalha muito, erra muito; quem trabalha pouco, erra pouco; quem não trabalha, não erra; quem não erra... é promovido».



Será? Pela experiência, creio que é mesmo assim. No entanto, penso que não poderá continuar a ser assim, a não ser que queiramos ver a Lusofonia substituída pela Francofonia ou por outra qualquer fonia.



Será isso que, por exemplo, os políticos das pátrias que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa querem que aconteça? Será isso que os empresários querem que aconteça?



Cá estamos para ver, esperando que não se repita a história do burro que quando estava quase a saber viver sem comer... morreu.



E se cá estamos para ver, também cá estaremos para dizer quem foram os que estavam a cantar no convés enquanto o navio se afundava.



Resta-me acreditar (continuar a acreditar) que a Lusofonia pode dar luz ao Mundo e que, por isso, não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar.



orlando@orlandopressroom.com




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