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  Cabo Verde
Pai de duas nacionalidades
foi assassinado há 30 anos

- 20-Jan-2003 - 0:08


Amílcar Cabral morreu a 20 de Janeiro de 1973 na Guiné-Conacri. «Se não tivesse sido a Pide a matá-lo, teriam sido certos independentistas», diz a filha


Quando se assinala o 30º aniversário da "partida" do "pai" das nacionalidades da Guiné-Bissau e Cabo Verde, as certezas da memória "esmagam" as dúvidas sobre a orquestração do assassínio do guerrilheiro. Apenas a especulação aponta possíveis cenários para o que se passou naquele dia de Janeiro, mas a memória de Elisé Turpin, um dos "camaradas" de Amílcar, permite seguir, com assinatura, os mais importantes momentos da "gestação" da independência da Guiné-Bissau.

Após a longa batalha de 11 anos travada pelos guerrilheiros liderados por Cabral e quase três décadas de independência, foram muitos os heróis que ficaram esquecidos num "canto da história" da Guiné-Bissau, permanecendo Amílcar como o regaço onde todos se recolhem.

Foi por "convicção" que, logo após a independência, Elisé Turpin se retirou para o seu "canto da história" e é para "ajudar a, finalmente, cumprir o ideal de Amílcar Cabral" que agora, com 72 anos de idade, regressa através de um passeio pela memória.

"Não há futuro possível - para a Guiné-Bissau - sem os ecos do passado a marcar o passo da história", considera Turpin, e é com essa convicção que, na sua casa, a 50 metros da sede do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), situada na Praça dos Heróis da Liberdade da Pátria (ex-Praça do Império), em Bissau, activa a memória.

Elisé Turpin conta, enquanto fundador do PAIGC ao lado de "mais cinco camaradas: Amílcar e Luís Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes e Júlio Almeida", o que foram os primeiros passos desta organização política que viria a ser o pilar central da "libertação da Guiné-Bissau".

Mas há ainda outro "pormenor" que enfatiza o papel de Turpin na criação do PAIGC: "Sim, posso ser considerado como o único indivíduo que esteve na fundação do partido e que era genuinamente cidadão guineense. Os outros eram todos filhos de pais cabo-verdianos".

O surgimento do PAI (Partido Africano para a Independência), depois transformado em PAIGC na Guiné-Conacri, acontece "por vontade e iniciativa de Amílcar Cabral", então jovem engenheiro agrónomo regressado dos estudos em Portugal, em 19 de Setembro de 1956.

Antes do surgimento do PAI, havia na então Guiné portuguesa muitas outras organizações ou movimentos de tendência nacionalista que aspiravam à libertação do país.

Tudo no seguimento dos ventos da libertação que sopravam nas outras províncias coloniais, sobretudo as províncias vizinhas do território da Guiné-Bissau: Senegal, Gana e Guiné-Conacri.

"Mas, verdade seja dita, o PAI foi de longe a organização melhor estruturada, conseguindo rapidamente granjear a simpatia dos rapazes da altura, que encontraram em Amílcar pensamento e personalidade, o estandarte que secretamente procuravam para poder seguir", diz Turpin com um leve, mas mal disfarçado, ar de orgulho por ter vivido estes momentos ao lado do mítico guerrilheiro.

Tudo começou com "um simples clube de futebol (não se recorda do nome) do qual faziam parte os fundadores do partido" e que rapidamente foi transformado num "espaço de consciencialização dos moços da altura para uma ideia de libertação do país".

"Lá partíamos nós, com as coisas do futebol à frente, mas com as coisas da libertação da Pátria atrás, dos lados, por cima, por baixo ... cada vez mais, cada vez mais conscientes do pontapé certeiro que estávamos a dar na História", diz Turpin.

Iniciativas deste tipo já aconteciam no Senegal, para onde muitos dos guineenses se deslocavam em visitas familiares, sobretudo Turpin, que, então, tinha familiares na administração pública em Dacar (capital).

Com tudo isso, cita de memória, Cabral dizia: "Olhem que os portugueses nos estão a enganar com alguns privilégios que dão a um grupo reduzido de indivíduos, enquanto a grande parte da população é explorada e maltratada".

"Devemos avançar para a independência", defendia Cabral, ainda citado por Turpin, mas acompanhava sempre esse desígnio com a exigência de uma "independência negociada". Ou seja: "Com diálogo. Sem violência".

Cabral era um "profundo cultivador do diálogo e da tolerância", frisa, admitindo algumas saudades desta forma de estar nos dias de hoje.

Chegado a este ponto do "escorrer" das memórias, Elisé Turpin fala também da polémica que é, na Guiné-Bissau, quase da idade do PAIGC: Quem foram, de facto, os fundadores do partido?

Sobre a história da dúvida de quem foram os fundadores do partido responde um dos eleitos: "Havia muitas pessoas com as quais Cabral vinha mantendo um relacionamento mais ou menos próximo mas, no acto da fundação do partido, Cabral fez uma selecção de pessoas da sua inteira confiança".

"Não se podia expor muito ao risco da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado - a polícia política do regime de Lisboa) desconfiar da nossa actividade", recorda.

"Todos nós éramos funcionários públicos na altura. Cabral era engenheiro agrónomo, Júlio Almeida, prático agrícola, Fernando Fortes, aspirante nas alfândegas, Aristides Pereira, chefe de administração e eu era guarda-livros", diz, aliviado, como que dando por sepultada a dúvida sobre este assunto.

"Lembro-me que, após a fundação do PAI, a PIDE quase que não saía do nosso encalço. Sabia que estávamos “contaminados” com o “vírus” dos movimentos de libertação, que se tinha já instalado noutras paragens de África. Mas, graças a Deus, sempre soubemos esconder os nossos propósitos", adianta.

No início, diz, "começámos (1956/57) logo os trabalhos de mobilização com os Balantas (a mais representativa etnia da população guineense) de Bará e Portugol, e ainda na região de Mansôa".

Fingiam que iam caçar coelhos e perdizes, mas a caçada era outra: "Aproveitávamos para falar com os rapazes sobre os propósitos do partido". Isto é, mobilizar a juventude para seguirem para os campos do partido na Guiné-Conacri".

Nesse trabalho de mobilização a favor do PAI os "camaradas" contaram com a ajuda de portugueses que estavam contra a ditadura fascista de Oliveira Salazar, alguns liberais, outros revolucionários do PCP que estavam na Guiné, "como é o caso de José Tomás Pires, Fortes Teixeira, Filipe Pomba Guerra, o próprio chefe do posto da polícia, de nome Liberato (...) todos estavam do nosso lado, só que de forma bem disfarçada".

Houve mesmo um administrador português que, na altura, só não prendeu Amílcar Cabral porque não quis, pois sabia muito bem das suas actividades "subversivas" e um dia chamou Cabral à sua residência, conta Turpin, para lhe dizer: "Rapaz, sei tudo o que andas a fazer mas não te prendo porque gosto muito de ti. Vê lá no que te metes".

Esse administrador era Diogo José Pereira de Melo Antunes.

O objectivo primeiro e último do partido de Cabral foi sempre a independência da Guiné que, ainda segundo Turpin, dizia: "Se a independência tiver que passar por um partido marxista, então vamos tê-lo".

E foi o que foi. Mas Cabral fazia também a distinção entre ter "um partido de cariz marxista e ser marxista", o que "ele mesmo dizia - o próprio Turpin o ouviu afirmar -, no princípio, que não era".

O contacto de Elisé Turpin com Cabral esfriou muito quando ele decide transferir a base do partido para Conacri, onde decidiram mudar a denominação do partido de PAI para PAIGC.

"Eu não participei na luta armada, ou seja, nos tiros. Não porque não quisesse, o facto foi que achei que podia ser útil ao partido estando cá para outras tarefas, tais como a mobilização de outros camaradas", frisa.

E acrescenta, arredando qualquer hipótese de ser encarada a afirmação como uma justificação: "Fui eu quem trouxe de Dacar aquele que foi o primeiro instrutor dos guerrilheiros guineenses em Conacri, o comandante Luciano Ndaw. Esse senhor já tinha feito a tropa colonial portuguesa e, portanto, sabia bem da poda".

"A minha ligação a Cabral resumiu-se à estadia dele em Bissau. Depois da sua partida para a Guiné-Conacri praticamente deixamos de nos corresponder. Passei a falar mais com o irmão dele - Luís Cabral, que viria a ser presidente da República após a independência - e com Rafael Barbosa que na altura era responsável pela chamada «zona zero» de mobilização, hoje a capital do pais", Bissau.

"Não posso falar muito do partido depois da independência porque, praticamente, desliguei-me, mas uma coisa sei: o partido que Cabral e nós fundamos queria mais de que isto que hoje temos. O nosso sonho era transformar a Guiné numa Suíça de África, pois julgávamos, e eu continuo a julgar, que o país tem potencialidades para tal", diz em tom de desafio às "novas gerações".

«SE NÃO FOSSE A PIDE SERIAM CERTOS INDEPENDENTISTAS A MATÁ-LO»


A historiadora Iva Cabral, filha de Amílcar Cabral, está convicta de que o assassínio do seu pai, se não tivesse a "mão" da polícia política portuguesa, seria da autoria de gente do movimento libertador que o pai criou.

Assassinado em Conacri a 20 de Janeiro de 1973, no auge da luta pela libertação da Guiné e Cabo Verde do colonialismo português, Amílcar Cabral continua a ter o seu desaparecimento envolto numa nebulosa de contradições e mistério.

Iva Cabral crê que, no assassínio houve a intervenção directa da PIDE, embora os executores tenham sido elementos que estavam inseridos no movimento de libertação.

A historiadora diz não acreditar no não envolvimento do general António de Spínola, então governador da Guiné, e posterior presidente da República Portuguesa, "dado o controlo que exercia", e considera estranho, e suspeito, o comportamento do presidente da Guiné-Conacri, Sékou Touré.

"Estou de acordo quando dizem que há envolvimento da PIDE. A documentação da PIDE que existe na Torre do Tombo, em Lisboa, chega até antes do assassínio do meu pai e pára. Não sei onde está o resto, se foi retirada ou queimada. Mas, lendo a documentação até lá, sabe-se que houve todo um trabalho feito pela PIDE em dividir os guineenses contra os cabo-verdianos, para poder reinar", refere.

Diz que, nessa documentação acessível, "há indício de que a PIDE tem contactos há muito tempo com certos dirigentes do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC)", que sustentava a luta pela independência das duas colónias, e cujo secretário-geral era Amílcar Cabral.

No entanto, Iva Cabral reconhece que também havia problemas internos no movimento de libertação e concorda com a tese, que há uns anos atrás "um soviético" lhe expressou, de que o seu pai, se não tivesse sido assassinado em 1973, teria sido mais tarde, talvez no golpe de Estado de 1980.

"Cabral era um homem do seu tempo, mas também tinha exigências que ultrapassavam o seu tempo. Eles estava a exigir de gente vinda da luta, do proletariado, como o Nino Vieira, muito mais do que eles poderiam dar", disse.

"O natural é querer virar dirigente. O natural é querer ocupar o lugar do branco e chegar à independência, ter aquilo que nunca tiveram, riqueza, carro, casa", observa Iva Cabral.

Na óptica da historiadora, Amílcar Cabral "tinha outra visão da independência, tinha ideias e exigências claras", e dizia que, "se a pequena burguesia não se suicida, vira burguesa, e se vira burguesa a independência já não terá o valor que devia ter".

"Não digo que participassem directamente na morte do Cabral, mas alguns guineenses, e cabo-verdianos também, ficaram contentes, porque para eles Cabral já lhes causava desconforto", por no seu ideário colocar os interesses colectivos acima das ambições pessoais, acrescenta.

Para Iva Cabral, o golpe de Estado de 1980, que levou Nino Vieira ao poder na Guiné-Bissau, depondo Luís Cabral e tendo como consequência o fim do sonho de Cabral de um país único com as ilhas de Cabo Verde, "é uma continuidade de 1973", dos acontecimentos que rodearam o assassínio.

"O golpe de Estado de 1980 demonstra que havia uma movimentação que não tinha já nada a ver com a linha que meu pai tinha traçado para o pós-independência. Ele acreditou na possibilidade desses jovens que tinha formado, de que não tivessem a ambição de se tornarem iguais aos colonos", sublinha.

Sobre um eventual envolvimento de Sékou Touré, presidente da Guiné-Conacri, Iva Cabral considera estranho o seu procedimento, e dos assassinos de Amílcar Cabral para com este.

"Eu não compreendo que alguém mata o Cabral dentro de Conacri e a primeira coisa que faz é ir à presidência dizer ao Sékou Touré: nós matámos o teu amigo", refere.

Realça ainda que esse mesmo grupo de assassinos manda Aristides Pereira, secretário-geral adjunto do PAIGC, que entretanto tinham detido, num barco para Bissau, e dirigem-se para o encontro com Touré.

Um outro comportamento que Iva Cabral considera estranho é que o presidente da Guiné-Conacri, depois de deter e interrogar os assassinos, nunca apresenta as provas apuradas e, no final, entrega-os à população, que os lincha.

"A primeira coisa que fazem é metê-los em camiões e enviá-los para a fronteira, sabendo que assim nunca se vai saber a verdade, porque chegam à fronteira e são executados pela população", observa.

No seu entendimento, "o normal a fazer quando se mata gente como o Cabral é mantê-los vivos, nem que seja 100 anos, para saber como foi, e não entregá-los à população para os matarem".


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