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  Entrevista
Jornal acusa Mari Alkatiri de atacar liberdade de imprensa
- 1-May-2005 - 22:25


O jornal privado timorense Suara Timor Lorosae acusou hoje o primeiro-ministro Mari Alkatiri de atacar a liberdade de imprensa em Timor-Leste, tentando por vários meios encerrar a publicação, pressionando os jornalistas a irem trabalhar para outro diário.


Em Nota à Imprensa, o gabinete do primeiro-ministro nega as alegações e informa que perdoou uma dívida de dois anos de rendas em atraso ao jornal em causa.

O conflito entre o Suara (A Voz) e Mari Alkatiri saltou para as primeiras páginas em Fevereiro passado, depois do jornal ter publicado várias reportagens sobre alegadas mortes provocadas por falta de alimentos no distrito de Ainaro.

Em consequência, o governo timorense impôs o "blackout" informativo por tempo indeterminado ao jornal, acusando-o de falta de objectividade e de publicar notícias falsas.

No comunicado hoje distribuído em que acusa Mari Alkatiri de tentar silenciar o jornal, pondo em marcha o processo de despejo das instalações que ocupava, e que se materializou a 20 de Abril passado, o director do Suara, Salvador Ximenes, acusa ainda o chefe do governo de ter pessoalmente contactado jornalistas daquele jornal para o abandonarem e passarem a trabalhar noutro diário.

O director-adjunto do Suara, Domingos Saldanha, disse à Lusa que o "blackout" governamental "está a ter efeitos nas receitas publicitárias", mas manifestou a intenção de não ceder ao que considera serem "pressões do poder", que lhe recordam as que o jornal sofreu durante o período de ocupação indonésia.

Na ocasião, também em declarações à Lusa, Mari Alkatiri salientou ser direito do governo relacionar-se apenas com órgãos de comunicação "sérios e independentes".

"É nosso direito relacionarmo-nos com órgãos de comunicação sérios e independentes e não com os propagandistas e que não têm objectividade", acrescentou.

Na Nota à Imprensa em que responde às acusações de tentativa de silenciamento do jornal, o gabinete do primeiro-ministro reafirma a "defesa da liberdade de imprensa e da comunicação social independente".

"Nunca em caso algum o chefe do executivo telefonou a jornalistas pressionando-os a abandonarem o jornal. No entanto, ainda que seja um acérrimo defensor da liberdade de imprensa, isso não impede o governo de ter uma opinião sobre com que órgãos de comunicação social deve dar entrevistas e o momento que escolhe para o fazer", acrescentou a Nota.

Relativamente à ordem de despejo ao Suara, a Nota à Imprensa historia que as instalações estavam a ser "abusivamente ocupadas" e que a decisão de mandar sair o jornal correspondeu ao culminar de "processo legal e transparente que o Estado tem vindo a aplicar a vários cidadãos e entidades", que ilegalmente ocupam bens que não lhes pertencem.

A Nota à Imprensa do gabinete de Mari Alkatiri conclui saudando o facto do Suara "continue todos os dias a sair para a rua".

Não é a primeira vez que o relacionamento entre o governo e a imprensa timorense é marcado pela conflitualidade.

Em Agosto de 2002, menos de três meses depois da independência ter sido restaurada, Mari Alkatiri acusou a imprensa escrita timorense de publicar boatos em vez de notícias.

O chefe do governo desferiu então um forte ataque contra a imprensa timorense, que acusou de viver alimentada de boatos e de estar empenhada em desacreditar o governo.

Segundo Mari Alkatiri, se a lei de imprensa já estivesse em vigor em Timor-Leste, os dois diários do país, Suara Timor Lorosae e Timor Post, poderiam ter já sido alvo de vários processos.

"Não leio os jornais porque fazem de boatos notícias. Fazem notícias contra mim, com declarações de outras pessoas e colocam lá a minha foto. Mas isto é informação em democracia?", afirmou então.

O segundo episódio do relacionamento conturbado com a imprensa veio a lume em Outubro de 2003, quando jornalistas da Televisão de Timor-Leste (TVTL) acusaram um vice-ministro de os intimidar e ameaçar.

Os dois jornalistas acusaram o vice-ministro dos Transportes, Telecomunicações e Obras Públicas, César Vital Moreira, de os ter intimidado quanto à forma como foi coberta uma conferência de imprensa dada por si.


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