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  Entrevista
Sim, senhor presidente
... o povo é quem manda

- 1-Jan-2003 - 0:18


Lula da Silva toma hoje posse. Os brasileiros estão em festa. A democracia está a funcionar mas, para além das eleições, ainda não conseguiu dar de comer a quem tem fome


Lula da Silva é hoje empossado como presidente do Brasil. O Povo está em festa e Brasília não vai chegar para as encomendas. A fazer fé no top das figuras públicas que estarão presentes, o êxito estará garantido. Mas será sempre assim? É claro que não. Mas isso sabe Lula da Silva, como sabia Fernando Henrique Cardoso, o primeiro chefe de Estado democraticamente eleito que nos últimos 40 anos entrega o cargo a um sucessor igualmente eleito. Também neste caso a fronteira entre bestial e besta é muito ténue. Seja como for, senhor presidente, o povo é quem manda, apesar de (sobre)viver numa casa onde todos ralham, mas em que só alguns têm pão.


LIÇÕES DE DEMOCRACIA NUM PAÍS QUE DEMOCRATIZOU A MISÉRIA


Lula da Silva ganhou as eleições presidenciais de 27 de Outubro com 61 por cento dos votos. "Espero que esta lição de democracia tenha sido aprendida e assimilada pela nossa cultura cívica e que daqui em diante essa normalidade democrática não volte a chamar a atenção", afirmou o ex-presidente, quando recebeu uma última homenagem no congresso.

Desde 1961, quando o chefe de Estado, Juscelino Kubitscheck, entregou o poder ao seu sucessor, Janio Quadros, nenhuma transição no Brasil foi totalmente democrática, resultado do voto directo.

O próprio Fernando Henrique Cardoso, que governou o Brasil entre 1995 e 2002, recebeu o poder de Itamar Franco, um vice-presidente que assumiu a presidência quando Fernando Collor de Melo renunciou ao cargo devido a um escândalo de corrupção.

Collor, por sua vez, sucedeu a José Sarney, que foi eleito vice-presidente por um colégio eleitoral em 1985 e assumiu o mandato após a morte de Tancredo Neves. Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime militar.

TODOS JUNTOS E FEM EM DEUS... AMEN

Mais de 17 chefes de Estado e de Governo dos mais de 160 países convidados estarão hoje presentes em Brasília. Ao contrário de posses anteriores, a cerimónia do presidente Lula não terminará após a entrega da faixa presidencial. Depois de a recebr, o presidente vai percorrer em carro aberto toda a Esplanada dos Ministério
s.
A festa começará ao meio-dia, com um espectáculo com artistas de renome, como Zezé de Camargo e Luciano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Zeca Pagodinho. Haverá também a apresentação de grupos folclóricos de vários pontos do país noutros três palcos montados para o efeito. Em termos de assistência, as previsões apontam para que 150 mil pessoas, um número recorde, acompanhem a posse presidencial.

O povo poderá assistir às cerimónias realizadas no Congresso e no Palácio do Planalto, assim como aos espectáculos e ao desfile do novo presidente, através de sete ecrãs gigantes instalados na Esplanada dos Ministérios e na Praça dos Três Poderes.

A chegada de Lula à Catedral de Brasília, onde terá início a cerimónia oficial de posse, está prevista para 14h30 locais. Dez minutos depois, o presidente segue de carro para o Congresso Nacional, com o vice-presidente José Alencar. Após ser empossado pelo presidente da Mesa do Congresso, Lula discursa e prossegue para o Palácio do Planalto.

O ex-metalúrgico recebe, então, a faixa presidencial, despede- se do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, dá posse aos ministros e discursa no Parlatório em Brasília.

Para finalizar a cerimónia, Lula e Alencar desfilam de carro num trajecto que foi concebido pelo arquitecto Ÿscar Niemeyer.

A segurança será feita por 6.000 polícias militares, 1.500 bombeiros, 200 agentes do Departamento de Trânsito, 200 agentes policiais civis e mais de 300 voluntários.

O QUE JÁ FOI DIZENDO O PRESIDENTE


O presidente Lula da Silva já foi dizendo que o principal problema que enfrentará este ano será (é) a falta de verbas para investimentos devido às limitações impostas pelo Orçamento.

"Vamos ter um ano difícil, porque a peça orçamental mandada para o Congresso é a mais apertada dos últimos dez anos. Não há dinheiro para investimentos", disse Lula, mostrando- se "assustado" com a falta de recursos.

"A falta de dinheiro assusta todo o mundo", sublinhou o chefe de Estado, realçando no entanto que os recursos disponíveis vão dar "para fazer muita política social" e que, apesar de ter encontrado problemas, não haverá espaço para lamentações.

"Tomei a decisão de não ficar a lamentar a falta de dinheiro. Vamos utilizar a vontade extraordinária da sociedade para fazer as coisas que têm de ser feitas", assegurou.

"Se não pudermos fazer uma grande coisa no primeiro momento, vamos fazendo o que for possível. Mas, na hora em que conseguirmos canalizar os recursos existentes para a política social, estou convencido de que vamos fazer muita coisa", adiantou Lula.

Mantendo o tom crítico que tem adoptado nos últimos dias em relação à administração cessante do presidente Fernando Henrique Cardoso, o novo presidente voltou a afirmar que a situação apresentada pelo actual governo está "muito aquém" da encontrada pela sua equipa de transição.

No entanto, apesar das alegadas discordâncias, Lula afirmou que pretende evitar atritos com o presidente cessante.

"Em vez de ficarmos chorando sobre o leite derramado e reclamando do que não foi feito, vamos tratar de fazer a nossa parte. O povo julgou o governo de Fernando Henrique Cardoso, derrotando-o nas eleições. Agora, nós temos de trabalhar", defendeu.


MUITO MAIS DO QUE APENAS O SENTIMENTO


O primeiro-ministro de Portugal, Durão Barroso, e Lula da Silva disseram que farão esforços para que as relações entre os dois países não fiquem apenas no nível sentimental.

"É preciso ultrapassar a retórica sentimental e as relações diplomáticas convencionais", afirmou José Manuel Durão Barroso, manifestando confiança nas instituições democráticas e no futuro da economia do Brasil.

Numa entrevista colectiva, após seu primeiro encontro com o presidente Lula, na Granja do Torto, Durão Barroso defendeu ainda a posição de Portugal como porta de entrada para o Brasil na União Europeia.

Lula também disse que é importante desenvolver esforços para que as relações entre os dois países não sejam apenas "sentimentais". "Espero que as relações políticas, culturais e comerciais possam valer o título de países irmãos", destacou Luiz Inácio Lula da Silva.

Parabéns Presidente! Os povos de língua portuguesa contam consigo e esperam que, apesar de tudo, faça por eles o que outros não conseguiram.

MANUEL GILBERTO
e ANTÓNIO SOUSA

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