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  Entrevista
Morreu Malam Injai, decano do jornalismo guineense
- 10-Mar-2005 - 17:19


O decano dos jornalistas da Guiné-Bissau, Malam Injai, faleceu quarta-feira a noite em Bissau aos 81 anos de idade, 47 dos quais ao serviço da emissora oficial guineense, actualmente designada Rádio Difusão Nacional (RDN).


Adolfo Malam Serco Injai, do seu nome completo, era tido como um dos "homens grandes" (anciãos) mais respeitados da Guiné-Bissau ao ponto de ser "pai espiritual" do actual presidente guineense, Henrique Rosa, bem como do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), general Tagmé Na Waié.

Tal como nos restantes países africanos, na Guiné- Bissau é habito ter como conselheiro alguém com reconhecido valor moral e Malam Injai desempenhava esse papel para muitas figuras politicas do país.

Comunicador nato, Malam Injai notabilizou-se através de um programa que apresentava na emissora estatal denominado "Terra Ku Si Povo" (a terra e as suas gentes), no qual fazia referências às origens culturais dos vários grupos étnicos da Guiné-Bissau.

Conhecedor por excelência do mosaico étnico que é a Guiné-Bissau, Malam Injai cativava o país inteiro nas noites de Quinta-Feira quando estava no ar o seu programa, contando estórias dos povos guineenses, no qual chegava a receber chamadas telefónicas de governantes ao mais simples cidadão.

Malam Injai fica também conhecido no país como intérprete do crioulo e dialectos locais para o português e vice-versa de vários governadores coloniais na antiga província portuguesa da Guiné, nomeadamente Peixoto Correia, Sarmento Rodrigues, Arnaldo Schultz e António de Spínola.

De entre todos estes, foi com António de Spínola, ultimo governador da então província da Guiné, com quem privou mais.

Na sua residência no bairro de Cupelão de Baixo, em Bissau, há várias fotografias que atestam sinais de "cumplicidade" entre Injai e o general português.

Numa entrevista que concedeu à Agência Lusa, curiosamente no dia 10 de Março de 2002, Malam Injai contou que António Spínola tinha um grande afecto para com os "nativos da Guiné" ao ponto de prometer abandonar o território em dez anos.

"Eu digo que Guiné não teve sorte pois se Spínola tivesse vindo para aqui antes do início da guerra- pela independência - acredito que não havia guerra nenhuma", disse nessa entrevista.

Malam Injai gabava-se de ser "um amigo de Portugal e dos portugueses" os quais considerava os seus "verdadeiros patrões de sempre".

Antes de entrar para o jornalismo, Serco Injai desempenhou variados cargos de chefia nas empresas comerciais existentes na então província da Guiné, nomeadamente as casas Gouveia, Barbosa e Comandita e Silva e Mendonça.

Homem respeitado na comunidade religiosa muçulmana, não só pelo facto de ter o título de El Haj, fez a peregrinação à cidade santa de Meca nove vezes, mas também pela sua intervenção sempre a favor do diálogo ecuménico e pela paz.

Durante a guerra civil na Guiné-Bissau entre Junho de 1998 a Maio de 1999, Malam Injai esteve ao lado do falecido bispo católico Dom Septtímio Ferrazzetta, entre os principais dirigentes do movimento de "Boa Vontade" que fazia a ponte entre a Junta Militar revoltosa e as tropas leiais ao então presidente "Nino" Vieira.

As mais destacadas figuras politicas guineenses, entre as quais o chefe de Estado, Henrique Rosa, e o primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, prestaram já hoje uma última homenagem ao falecido jornalista, deslocando-se ao local onde o corpo está exposto.


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